Como o g1 identificou 9 candidatos com mandados de prisão em aberto
20/08/2026
(Foto: Reprodução) Urna eletrônica eleições mulher
Tribunal Superior Eleitoral/TSE
Na quarta-feira (19), o g1 publicou um levantamento exclusivo que revelou que nove candidatos das eleições de 2026 eram alvos de mandados de prisão em aberto por dívida de pensão alimentícia.
Para identificar nove candidatos das eleições de 2026 com mandados de prisão em aberto, o g1 cruzou 20.575 registros de candidatura com 280.578 ordens do Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP). A reportagem analisou 475 casos individualmente para excluir homônimos e confirmou 11 pelo CPF.
Duas ordens de origem criminal, contra Marcos Paulo Bertolo e Lindameri de Oliveira Rodrigues, saíram da lista de mandados em aberto do Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP) após o contato do g1 com os tribunais.
Até a publicação da reportagem, os nove candidatos apareciam no sistema da Justiça Eleitoral como “concorrendo”, com os pedidos de registro ainda aguardando julgamento. Ao mesmo tempo, constavam no BNMP como alvos de ordens pendentes de cumprimento.
A existência de um mandado de prisão, por si só, não impede uma pessoa de concorrer nas eleições. Enquanto a ordem estiver válida, porém, o candidato pode ser preso se for encontrado. Em 19 de setembro entra em vigor a proteção prevista na legislação eleitoral, segundo a qual candidatos só podem ser presos ou detidos em caso de flagrante delito.
Veja, abaixo, como o g1 produziu a reportagem.
Coleta dos dados de mandados e de candidaturas
Os dados dos mandados de prisão foram extraídos do BNMP, plataforma mantida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), alimentada pelos tribunais e acessível a qualquer cidadão.
A extração automatizada em nuvem ocorreu em quatro etapas: coleta em massa por estado, detalhamento dos processos, busca individual dos registros não encontrados na primeira etapa e download e leitura dos mandados em PDF para obter informações complementares.
A base bruta reunia 413.106 registros. A aplicação do filtro obrigatório “pendente de cumprimento” reduziu esse total para 329.200 mandados em aberto. Os cerca de 83,9 mil registros restantes correspondiam a ordens já cumpridas ou baixadas, mantidas no histórico do sistema.
Os dados passaram por tratamentos para retirar duplicidades pelo identificador de cada peça judicial e padronizar os CPFs em 11 dígitos. Após os filtros e tratamentos, 280.578 mandados compuseram a base utilizada no cruzamento com as candidaturas.
O CPF estava disponível em 225.898 dos 329.200 mandados pendentes, o equivalente a 68,6%. O regime prisional aparecia em 44,3% dos registros: 29,7% indicavam regime fechado, 10,3% semiaberto e 4,3% aberto.
A rotina de extração é executada duas vezes por dia, às 10h e às 17h, de segunda a sexta-feira, e não funciona nos fins de semana. Na manhã de segunda-feira (17), às 8h, a atualização válida mais recente disponível era de sábado (15), às 7h30.
A extração enfrenta limitações da infraestrutura do portal do BNMP, como bloqueios de tráfego, restrições ao volume de consultas por página, interrupções por demora na resposta, camadas adicionais de validação de acesso e documentos protegidos por segredo de Justiça.
Já os dados das candidaturas foram obtidos no sistema da Justiça Eleitoral. Ao todo, foram analisados 20.575 registros disponíveis na base do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Cruzamento dos dados
Como o volume de informações era elevado, o g1 organizou as bases em planilhas e usou fórmulas do Excel para padronizar os CPFs em 11 dígitos, retirar duplicidades e cruzar os registros do TSE com os mandados do BNMP.
O primeiro cruzamento apontou 475 correspondências potenciais, identificadas pelo CPF ou pela coincidência de nomes.
Uma primeira triagem retirou 343 registros referentes a homônimos, pessoas diferentes que têm o mesmo nome. Restaram 132 casos para análise individual.
A reportagem comparou CPF, nome completo, data de nascimento, filiação e outras informações disponíveis nos mandados, nos registros eleitorais e em documentos públicos. Ao final:
11 casos foram confirmados pelo CPF;
57 foram descartados porque os dados mostraram que o mandado não se referia ao candidato;
64 não apresentavam informações suficientes para confirmar ou afastar a correspondência.
Os 64 casos inconclusivos não foram incluídos na reportagem.
Nova checagem e mudanças no BNMP
Depois da confirmação dos 11 casos, o g1 consultou novamente os mandados, os processos e a situação dos candidatos no TSE. Também procurou os tribunais responsáveis pelas ordens.
Nesse período, os mandados contra Marcos Paulo Bertolo e Lindameri de Oliveira Rodrigues saíram da lista de ordens em aberto do BNMP.
No caso de Lindameri, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina informou, após o contato do g1, que o mandado seria revogado e sairia do BNMP assim que o trâmite se completasse. Na consulta seguinte, a ordem já não aparecia como pendente.
O Tribunal de Justiça do Amapá não respondeu sobre a saída do mandado contra Marcos Paulo. Por isso, não foi possível confirmar o motivo da alteração.
Uma ordem pode sair da lista de mandados em aberto após ser cumprida, revogada, suspensa, cancelada, baixada ou corrigida pelo tribunal responsável. A mudança no BNMP não significa necessariamente que a pessoa foi presa ou que o processo acabou.
Com essas alterações, o levantamento foi publicado com nove candidatos, todos alvos de mandados de prisão civil por dívida de pensão alimentícia.
Pedidos de resposta
Com as identidades confirmadas, o g1 procurou os 11 candidatos inicialmente identificados, os sete partidos e os tribunais responsáveis pelas ordens. O TSE e o CNJ também foram questionados.
Carlos Alexandre foi o único candidato a responder. Ele afirmou que os valores da pensão estavam quitados e que desconhecia a existência de mandado ativo. O Tribunal de Justiça do Amazonas, porém, confirmou que a ordem estava pendente de cumprimento.
Após a publicação, o MDB-RS afirmou que recebeu as certidões exigidas pela legislação e que desconhecia a ação contra Antonio Moeler.
O Republicanos Amapá declarou que os documentos apresentados por Marcos Paulo Bertolo estavam regulares e que não havia, nas informações disponíveis ao partido, condenação que impedisse a candidatura.
Os outros dez candidatos e cinco partidos não responderam. O TSE também não se manifestou.
O CNJ informou que os dados do BNMP são inseridos pelos tribunais e que os mandados só adquirem validade jurídica após a conferência e a assinatura do magistrado responsável. Segundo o conselho, eventuais correções também devem ser feitas pela unidade judicial que emitiu a ordem.
Veja aqui a reportagem completa sobre os nove candidatos com mandados de prisão em aberto.
*O trabalho de engenharia de dados foi realizado por Rafael Muniz, Rodrigo Guimarães, Daniel Maffezzoli, Pedro Mello e Douglas Brum. A equipe de ciência de dados teve Amanda Zírpolo e Jhon Heider, com análise de dados de Rafael Dantas. A gestão foi de Gustavo Costa, Leonam Brites e Luciana Dias. Esta reportagem também contou com a colaboração da jornalista Bianca Muniz.