Lobista ligada a Lulinha, Roberta Luchsinger deve mais de R$ 1 milhão em impostos e acumula processos na Justiça

  • 31/08/2026
(Foto: Reprodução)
Apontada pela Polícia Federal (PF) como lobista, a empresária Roberta Luchsinger tem uma ficha extensa de processos na Justiça por conta de dívidas que não foram pagas. A lista de credores inclui tapeceiro, escola da filha, loja de roupas, inquilinos, agência de marketing eleitoral, babá, empregada doméstica, além da União e da Prefeitura de São Paulo. As duas empresas de Roberta deixaram de pagar mais de R$ 1 milhão em impostos. As dívidas e o histórico na Justiça contrastam com a vida exposta por ela nas redes sociais, com uma rotina de viagens frequentes, em hotéis de luxo e jantares em restaurantes regados a vinhos com rótulos prestigiados. A reportagem analisou nove processos contra Roberta nas Justiças de São Paulo e de Minas Gerais. A análise dos documentos mostra que a empresária, além de não pagar seus compromissos, descumpriu sucessivamente acordos para quitar os débitos. Em vários casos, a Justiça não conseguiu localizá-la nos endereços ligados a ela e também não encontrou dinheiro nas contas, nem bens associados à empresária. Em dois processos, Roberta chegou a alegar pobreza para não arcar com as custas processuais. Os processos de Roberta Luchsinger por dívidas sem pagamento  Dívida de R$ 1 milhão em impostos  A empresária é proprietária da RL Consultoria e Intermediações S.A e da produtora Elephant 2 Produções Ltda. Segundo informações da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, a empresa de consultoria possui uma dívida de R$ 821.090,57 em impostos federais que não foram pagos ao longo dos anos. A empresa também deve R$ 199.713,99 de Imposto Sobre Serviços (ISS). A Prefeitura de São Paulo moveu um processo contra a empresa para cobrar o valor. A RL Consultoria e Intermediações não paga o ISS ao município há cerca de cinco anos. Já a Elephant 2 tem uma dívida de R$ 54.746,42 com a União e de R$ 27.857,68 com a Prefeitura de São Paulo também por falta de pagamento de ISS. Somadas, as dívidas com impostos das duas empresas de Roberta é de R$ 1,1 milhão. Roberta é investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeita de tráfico de influência e corrupção. Ligação com o 'Careca do INSS' De acordo com as investigações, ela recebeu R$ 1,5 milhão para trabalhar como lobista de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, que está preso preventivamente desde o ano passado por suspeita de envolvimento no esquema de fraudes na previdência. Segundo a PF, Roberta se aproveitou das relação com figuras do governo federal para tentar viabilizar contratos com a administração pública. Em 2024, a empresária pagou R$ 217 mil ao ex-chefe de gabinete da presidência, Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola. A PF também apura se Roberta pagou vantagens indevidas a Fábio Luís da Silva, o Lulinha, de quem é amigo. A empresária, Marcola e Lulinha negam as acusações. O ex-chefe de gabinete diz que apenas pegou um empréstimo com Roberta e que já quitou a dívida. A defesa de Lulinha afirma que ele tinha relação de amizade com a empresária e nunca recebeu dinheiro dela ou do Careca do Inss para facilitar o acesso deles ao governo. LEIA TAMBÉM Roberta Luchsinger diz que pediu apoio a Marcola, mas não pagou, e que Lulinha é amigo antes de Lula ser presidente Roberta Luchsinger Reprodução O filme que nunca saiu do papel Em 2016, Roberta e uma sócia na empresa procuraram o aposentado Lauro Escobosa Vallejo para convencê-lo a ajudar a encontrar investidores para um filme sobre o designer de carros de luxo Horácio Pagani. De acordo com aposentado, elas se apresentaram como produtoras de prestígio, com lastro financeiro familiar, para bancar a obra. Lauro foi procurado por ter construído carreira no sistema financeiro. Para viabilizar o filme, Roberta e a sócia abriram uma empresa nos Estados Unidos junto com um produtor americano. O dinheiro para bancar o filme viria de um investimento de US$ 4 milhões de um suposto fundo do Bahrein. Até que o valor fosse liberado, houve a necessidade de fazer um “empréstimo-ponte” para dar início à produção do filme. Roberta encontrou um investidor que topou repassar US$ 300 mil para o filme, mas exigiu garantias. A empresária, então, convenceu Lauro a ser avalista do empréstimo. O aposentado colocou o seu bem mais valioso como garantia da operação: uma fazenda, com uma pousada, em São Tomé das Letras (MG), avaliada em R$ 8 milhões. “Acabei aceitando. Me prometeram uma participação na bilheteria do filme. Enfim, iriam me pagar uma comissão. Acho que na época eram R$ 40 mil”, afirmou. O dinheiro do Bahrein nunca apareceu. Já os US$ 300 mil do empréstimo-ponte sumiram, e o investidor exigiu a fazenda como garantia. O prejuízo ficou todo com o aposentado. Ele tentou reverter a situação na Justiça, mas sofreu sucessivas derrotas. Os juízes concluíram que Lauro assumiu o risco ao assinar o contrato que colocou a fazenda como garantia. “Tudo que eu tinha, estava lá. Inclusive, não é a questão da propriedade em si, é o sonho. Não é fácil”, afirmou o aposentado. A Elephant 2 não tem registro na Ancine (Agência Nacional de Cinema), nem possui no histórico qualquer produção audiovisual conhecida. O contrato assinado com o fundo do Bahrein não tinha a assinatura de nenhum representante do fundo. Procurada pela reportagem, Roberta afirmou que também foi vítima de um golpe e que Lauro sabia dos riscos ao participar da operação. Falsa herdeira do banqueiro suíço Roberta Luchsinger estabeleceu relações com o mundo da política a partir de 2011, quando se casou com o então deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB), que se tornou conhecido anos antes por chefiar a Operação Satiagraha. Eles se separaram em 2014, ano que terminou o mandato de Protógenes. Em 2017, Roberta passou a usar como cartão de visitas uma informação falsa: de que era herdeira de um banqueiro suíço, fundador do Credit Suísse. Na época, chegou a dar entrevistas como herdeira, dizendo que doaria bolsas, roupas e outros itens de luxo para arrecadar R$ 500 mil e transferir a Lula, que naquele momento estava com os bens bloqueados em função da Operação Lava-Jato. Segundo integrantes do PT, o destaque temporário que ela recebeu na época permitiu que ela passasse a transitar em setores do partido, ainda que o dinheiro prometido nunca tivesse sido doado. Em 2018, ela foi candidata a deputada estadual pelo partido, mas não se elegeu. O registro de casamento do avô da empresária, Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger, mostra que ele não era suíço, nem banqueiro. Ele nasceu no Rio de Janeiro em 1927 e era comerciante, dono de uma lavanderia. Procurada, Roberta reafirmou que o avô nasceu na Suíça, mas admitiu não ter documentos para comprovar essa informação. Dívida paga com quadros falsos de Portinari Alguns dos imóveis que aparecem nas fotos de Roberta nas reportagens de 2017 foram reformados pelo tapeceiro Nilton Cezar Pires, dono de um pequeno comércio no bairro Guarapiranga, extremo sul da capital paulista. Em 2011, a empresária contratou os serviços dele por R$ 61 mil. Ele levou três meses para finalizar o serviço, que mobilizou vários funcionários. “Fiz a casa dela inteira. De sofá, cama, forração de parede, tudo”. Roberta deu um sinal de R$ 25 mil reais e não pagou mais nada. Ela foi condenada na primeira e segunda instâncias e até pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), mas descumpriu dois acordos para pagar o que devia. Ao longo do processo, a empresária chegou a culpar uma decoradora pelo calote. Também acusou o tapeceiro de ter furtado tecidos importados dela. A Justiça refutou todas essas acusações e determinou a penhora de bens dela para que a dívida fosse quitada. Um carro de luxo de Roberta, que estava na lista da penhora, desapareceu. A empresária, então, entregou ao oficial de Justiça uma coleção com 14 gravuras, dizendo que eram obras originais de Cândido Portinari, avaliadas em R$ 70 mil. As obras foram entregues ao tapeceiro, e o processo foi encerrado em 2019. Nilton não conseguiu contratar um perito para avaliar as obras. A reportagem, no entanto, procurou o Projeto Portinari, fundado pelo filho do pintor, que informou que as obras não são verdadeiras. “Tratam-se de meras reproduções de obras de Portinari. Uma delas, o ‘Menino Morto’, está no momento exposta no Museu Nacional da China.” Quinze anos depois, o calote ainda perturba o tapeceiro. “A gente tem um baque, né? Porque a gente tem funcionário pra pagar, um aluguel de um ponto. Chegamos a vender um carro [para pagar os funcionários]. “A gente fica desesperado, fica triste. Ver uma pessoa devendo e só viajando, postando viagem, é triste.” Calote na boutique, escola, campanha eleitoral e babá Em 2017, Roberta matriculou a filha em uma escola no Jardim América, área nobre de São Paulo, mas ficou praticamente o ano todo sem pagar as mensalidades. A dívida de R$ 91 mil reais, em valores não corrigidos, nunca foi paga. No mesmo ano, a empresária gastou R$ 6.124 numa loja de grife e nunca pagou a duplicata que viabilizou a compra. A Justiça mandou penhorar os bens, mas não encontrou dinheiro nas contas de Roberta e nenhum outro item de valor relacionado à empresária Em 2023, última atualização da dívida, o valor era de mais de R$ 21 mil. Neste processo, Roberta chegou a oferecer para a penhora um quadro intitulado “Manerva’, da artista plástica Leslie Amaral. A empresária declarou à Justiça que a obra valia R$ 100 mil reais. O quadro foi penhorado, mas sumiu antes de ir a leilão. Os donos eram um casal de idosos, que usavam o dinheiro da locação como complemento da aposentadoria. O homem morreu durante o processo, sem nunca ter recebido o dinheiro. Roberta Luchsinger foi alvo de uma ação de despejo por não pagar aluguel, condomínio e IPTU de um apartamento em Higienópolis, outra área nobre da capital paulista. O apartamento foi alugado em 2019. Como Roberta não pagava as despesas, os proprietários moveram uma ação de despejo em outubro de 2020. A empresária deixou o apartamento em março de 2023, depois de quebrar vários acordos de pagamento. A dívida, que chegou a quase meio milhão de reais, foi paga de uma vez só em maio de 2024, quando, segundo as investigações da Polícia Federal, Roberta já atuava como lobista em Brasília. O quadro citado no processo da boutique, que havia desaparecido, também foi mencionado neste processo de despejo. Só que, dessa vez, um perito fez uma avaliação e concluiu que a obra valia R$ 5 mil, e não R$ 100 mil, como a empresária havia declarado. Em 2022, Roberta foi pré-candidata a deputada federal e não pagou a agência de publicidade que contratou para a pré-campanha. A empresa tirou fotos, fez vídeos e produziu material para a pré-campanha. Dos R$ 42 mil do serviço, só pagou R$ 4.200. A empresária acabou desistindo de se candidatar. Em 2016, Roberta contratou uma babá e uma empregada doméstica. As duas foram demitidas sem receber verbas rescisórias e outros direitos trabalhistas. O FGTS (Fundo de Garantia sobre Tempo de Serviço) também não foi recolhido. A Justiça tentou penhorar bens, mas não encontrou nada no nome de Roberta para pagar a dívida. Os dois processos prescreveram sem que as funcionárias recebessem o dinheiro. Somadas, as dívidas trabalhistas que restaram ultrapassavam R$ 50 mil. Outro lado A empresária foi questionada sobre todos os processos citados na reportagem, mas não quis se posicionar. Limitou-se a encaminhar uma lista com o status de cada processo e os valores das dívidas.

FONTE: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/31/apontada-como-lobista-roberta-luchsinger-deve-mais-de-um-milhao-em-impostos-e-acumula-processos-na-justica.ghtml


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